A mordomia da adoração

Tiago Rosas.

O estudo de hoje volta-se para o tema adoração, e nele buscaremos discorrer sobre conceitos teológicos além de oferecer contribuições práticas sobre como devemos ser bons mordomos da adoração a Deus em nossas vidas, não só no ambiente de culto congregacional, mas em todo lugar em que estivermos.

Deus merece ser adorado na beleza da sua santidade!

I. O que é adoração

O teólogo D.G. Peterson afirma que “A adoração não é definida praticamente em nenhum lugar das Escrituras. Mas, quando se pesquisam os principais termos bíblicos para adoração em vários contextos, fica claro que os conceitos centrais são respeito, serviço e reverência”. [1]

Na vida do cristão, adoração não é um ato esporádico de exaltação ou uma expressão de reverência que se resume aos breves momentos de culto na congregação. Não! Adoração é um estilo de vida, que deve se iniciar na conversão e se estender por toda eternidade, já que nossa vida precisa ser em todo tempo e em todo lugar uma oferta de louvor a Deus.

1. No Antigo Testamento

A palavra mais recorrente no hebraico do AT e que carrega em si o conceito de adoração, é shaha, que significa inclinar-se perante ou venerar. Nem sempre o sentido desta palavra no texto será o de adoração, pois é usada também para falar de pessoas que se inclinaram respeitosamente perante outras de posição social elevada, como patriarcas, sacerdotes, profetas e reis, sem necessariamente ter a intenção de adorá-las como a divindades (Confira alguns textos e atente sempre para os contextos: Gn 22.5; 42.6: 48.12; Ex 24.1; Jz 7.15; 1 Sm 25.41; Jó 1.20; SI 22.27; 86.9 etc.).

Os primeiros dentre os Dez Mandamentos proibiam a adoração a outros deuses ou mesmo a veneração de imagens de escultura, visto que Yavé é o único e verdadeiro Deus, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó (Êx 20.1-6).

O culto (hb. abad) hebreu deveria seguir as normas estabelecidas pelo próprio Deus, que distinguiam a adoração do povo de Israel dos demais povos pagãos do Oriente; seguir as normas divinas (como se vê, por exemplo, no livro de Levítico, o manual do culto hebreu) era imprescindível para que os sacrifícios, louvores e orações do povo pudessem ser agradáveis a Deus – o que já demonstra que a adoração que agrada a Deus é aquela pautada na pureza e na obediência.

Como Peterson destaca: “No AT, o culto é concentrado de modo ideal no local designado por Deus. A adoração segue os rituais estabelecidos por Deus e é mediada pelo sacerdócio ordenado por ele. Mas essa atividade cultual não promove honra a Deus, a não ser quando conduz à obediência e ao louvor em todas as esferas da vida [2]

2. No Novo Testamento

“Na Bíblia grega, normalmente se traduz por proskynein [ou proskyneo]. Desde a Antiguidade, esse termo expressa o costume oriental de curvar-se ou lançar-se ao chão, para beijar o pé, a borda das vestes ou o solo, como gesto completamente corporal de respeito diante de pessoa importante”. [3]

O verbo proskyneo ocorre, por exemplo, em Mateus 2.2, quando os magos que estavam em busca do menino Jesus diziam: “viemos para adorá-lo”; ocorre em Mateus 4.10, quando na tentação do deserto Jesus repreende ao diabo reafirmando a doutrina veterotestamentária de que somente “Ao Senhor, teu Deus, adorarás [proskyneo] e só a ele darás culto [latreuo]”; ocorre também na passagem de Mateus 8.2, quando diz que um leproso, aproximando-se de Jesus o adorou.

Vê-se frequentemente no texto bíblico que o ato de adoração (proskyneo) envolve sempre uma posição respeitosa de alguém que se percebe inferior ao outro que é reverenciado. Note nos evangelhos especialmente que sempre que se menciona alguém adorando a Jesus, diz-se que o adorador “prostrou-se diante” (Mc 5.22; Lc 5.8) ou então “lançou-se aos pés” de Jesus (Mc 7.25; Jo 11.32).

A adoração envolve mais que palavras, envolve o corpo e o ser por inteiro reverentemente postados diante do Senhor; embora a adoração genuína seja em verdade mais que uma encenação ou dramatização forçada – o que Jesus discerne perfeitamente, já que ele vê para além de nossa aparência.

Destacamos ainda que no Antigo Testamento, antes da revelação da Pessoa do Filho de Deus e de uma compreensão mais adequada da Pessoa do Espírito Santo, os crentes da antiga aliança adoravam a um único Deus como sendo uma única Pessoa; todavia, com a manifestação do Filho de Deus encarnado e o derramamento do Espírito na fundação da Igreja, compreendemos que Deus é triúno (um único Deus em três pessoas distintas – um mistério para a nossa mente finita), e que tanto o Pai, quanto o Filho e o Espírito Santo são dignos de nossa adoração.

3. Outras palavras relativas a adoração

Ainda que com menos frequência que o termo proskyneo, outras palavras expressam semelhante sentido no texto grego do Novo Testamento: sebomai, que significa reverenciar, adorar, ser devoto; e o termo latreuo, que significa venerar publicamente, ministrar, servir, prestar homenagem religiosa. Desta última palavra origina-se o termo idolatria (formada de eidolon + latreuo, ou seja, venerar ídolos ou culto às imagens).

III. Gestos e atitudes na adoração a Deus

Deus não está interessado em “caras e bocas” para sairmos bonitos na foto durante os cultos para as redes sociais, nem está também interessado em pregadores e cantores performáticos, cheios de pose para as câmeras fotográficas. Ele quer nosso corpo como sacrifício vivo, santo e agradável! Quando a vaidade pessoal prevalece, então o crente passa a venerar a própria imagem (egolatria) e deixa de ser um adorador do único que é Digno! Aprendamos com os salmistas: “Não a nós, SENHOR, não a nós! Mas ao teu nome dá glória” (Sl 115.1).

1. Ajoelhar-se e prostrar-se

O ato de encurvar-se perante o altar do Senhor, perante a arca da aliança ou na direção do Templo era muito comum entre os judeus, como um reverente ato de adoração. Esse ato frequentemente envolvia uma prostração “até o solo”, onde o adorador lançava literalmente sua face no pó! (Confira: 2Cr 20.18; Jó 42.5,6; Sl 95.6; 1Co 14.25)

Porém, lembra-nos Peterson, que este gesto “só era significativo se expressasse reconhecimento à majestade e santidade de Deus e um desejo de reconhece-lo como rei”. O ato de ajoelhar-se, colocar a cara no pó, rasgar as vestes, descabelar-se e até mesmo realizar jejuns prolongados seriam todos inúteis se não fossem acompanhados de sincera devoção, humilhação e quebrantamento no mais profundo do ser! (Sl 51.17).

Com base no texto de 2Crônicas 7.14 aprendemos que na genuína adoração deve haver: humilhação, oração, busca e conversão ao Senhor. Dobrar os joelhos, mas não inclinar os ouvidos para a Palavra de Deus, ou prostrar-se diante do púlpito, mas não reverenciar a Deus na família e no trabalho, é mera encenação! Um teatro que Deus não vai aplaudir, como dizia Eugene Peterson, autor da Bíblia A Mensagem.

2. Louvar e cantar

Dizia C.S. Lewis que “louvar é cantar a beleza do Criador”. Seja no culto congregacional, seja nos nossos devocionais diários ou em tantas oportunidades quantas tivermos ao longo do dia (mesmo em afazeres domésticos e trabalhos profissionais), o louvor é um instrumento poderoso para elevar-nos à presença do Senhor, nos auxiliar em nossas orações e ainda afugentar pensamentos maus que vêm nos assolar constantemente.

Diz o ditado que quem canta seus males espanta. De fato, o louvor espanta a murmuração, espanta a inquietação da alma, espanta os pensamentos impuros, espanta a tristeza e a ansiedade… De tal modo é importante o louvor, que na Bíblia temos um livro que é um verdadeiro hinário sagrado, o livro dos Salmos! O que a Harpa Cristã, o Cantor Cristão ou o Salmos e Hinos são para nós hoje, assim era a coletânea dos Salmos para os antigos crentes de Israel.

Os poetas de Israel nos conclamam a cantar alegremente ao Senhor (SL 47.6; 150.6). Jesus cantou (Mt 26.30); os discípulos, ainda que sob situações tão adversas, cantaram (At 16.25); o apóstolo Paulo demonstrou sua afinidade pelo louvor nos reiterados apelos dirigidos às igrejas para que adorassem a Deus e se edificassem mutuamente através de “salmos, hinos e cânticos espirituais” (Ef 5.19; Cl 3.16). Até mesmo o cântico “em espírito”, isto é, o louvor em outras línguas concedidas pelo Espírito de Deus, o povo de Deus é estimulado a oferecer ao Senhor (1Co 14.15).

Se no culto congregacional a pregação é suprimida devido o excesso de oportunidades para o louvor, o que deve ser feito para corrigir este problema não é anular o louvor, nem menosprezar a importância dele para o culto cristão, antes, deve-se administrar melhor o tempo, avaliar a letra e a teologia dos hinos que estão sendo cantados, além de garantir tempo adequado para a exposição da Palavra de Deus. Tiago, irmão do Senhor, nos estimula a cantar: “Está alguém alegre? Cante louvores” (Tg 5.13).

Quando cantamos louvores, Deus é engrandecido pelo sacrifício dos nossos lábios (Hb 13.15) e nossa alma é fortalecida.

3. Glorificar a Deus

Glorificar a Deus não é uma tarefa, mas uma missão de vida! Não é mera expressão vocal de “glória a Deus!” ou “Aleluia!” durante um culto fervoroso, mas a exaltação que tributamos a Deus mediante nosso proceder diário. Como disse Paulo, “glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1Co 6.19).

Conclusão

Como vimos, a adoração não se resume aos cultos congregacionais, nem também a expressões vocais ou corporais de exaltação a Deus. Podemos e devemos adorar a Deus através de tudo isso, porém, o nível mais sublime de adoração é o de uma vida totalmente entregue ao Senhor para amá-lo e obedecê-lo em todas e quaisquer áreas da vida! Cuidemos para que nossa vida seja um altar ao Senhor onde quer que estejamos.

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[1] D. G. Peterson em Novo Dicionário de Teologia Bíblica (Alexander & Rosner, orgs.), Vida, p. 550, grifo nosso
[2] op. cit.
[3] op. cit.
[4] op. cit., p. 556
[5] op. cit., p. 556

Tiago Rosas

Casado, bacharel em teologia (Livre), evangelista da igreja Assembleia de Deus em Campina Grande-PB, administrador da página EBD Inteligente no Facebook e autor de dois livros: A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira (2016) e Biblifique-se: formando uma geração da Palavra (2018).

Fonte: Gospel Prime