O pátio do Tabernáculo

Por Tiago Rosas.

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 2 do trimestre sobre “O Tabernáculo – Símbolos da Obra Redentora de Cristo” .

Pátio ou átrio é um espaço externo cercado por muros ou prédios. Nesse sentido comum, muitas de nossas casas hoje têm um átrio, aquele espaço onde fica o jardim da nossa casa, antes de adentrarmos a sala que costuma ser o primeiro cômodo em nossas residências. O tabernáculo de Deus também tinha esse espaço externo e descoberto, o primeiro ambiente onde os sacerdotes e levitas ministravam e o único lugar onde os israelitas comuns podiam adentrar, sempre levando algo para sacrificar ao Senhor. Há mui ricas lições para aprendermos nesta e nas duas próximas Lições sobre o átrio e a sua mobília. Com a Bíblia em mãos, iniciemos este estudo.

I. O pátio entre as tribos de Israel

Deus quis habitar no meio do seu povo, para que o povo de Israel fosse verdadeiramente teocêntrico, isto é, vivesse para glória de Deus, centralizando-o em seus pensamentos, em suas atitudes e em sua adoração. A fim de conferir a devida organização das tribos dos hebreus em torno do tabernáculo que centralizava a kabod [glória] divina, o Senhor orienta Moisés quanto ao acampamento das tribos “ao redor, [e] de frente para a tenda da congregação” (Nm 2.2).

A descrição desse arranjo das tribos em volta do átrio se encontra no segundo capítulo de Números. A imagem abaixo resume e ilustra esse acampamento:

Três coisas são merecedoras de destaque:

1. A direção do tabernáculo: deveria sempre ser montado com a sua entrada voltada para o oriente ou leste, isto é, a direção do nascer do sol. A cada amanhecer, os hebreus poderiam ter a convicção e que as misericórdias de Deus estavam sendo renovadas sobre eles (Lm 3.22,23). Certamente, essa direção para o nascer do sol também apontava para Cristo, aquele que é “o sol da justiça” (Ml 4.2).

2. A maior proximidade dos levitas: os descendentes de Levi estavam mais próximos do tabernáculo, acampando-se em sua volta. O número total de levitas (homens) contados a partir de um mês de vida somava vinte e dois mil (Nm 3.39). Moisés, Arão (responsável pelo sacerdócio) e suas respectivas famílias acampavam bem à entrada do tabernáculo; os demais, filhos de Coate, Gérson e Merari, rodeavam o santuário, a fim de o proteger, carregar, armar e desarmar (Nm 3.21-39). A advertência era clara: “o estranho que se aproximar morrerá” (Nm 3.38).

3. A tribo de Judá bem à entrada do tabernáculo: além da razão numérica (Judá era a maior tribo, com setenta e quatro mil homens adultos, além de mulheres e crianças), cremos que havia uma razão tipológica e profética para esta tribo estar posicionada bem à frente do tabernáculo, na direção do oriente. Voltando à benção de Jacó ministrada sobre seu filho Judá, lemos: “Judá é leãozinho… encurva-se e deita-se como leão… O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus pés…” (Gn 49.9,10). Essa predição de Jacó apontava para a força e a liderança futura de Judá, donde viriam os reis de Israel. Jesus, que era descendente de Judá, é identificado como “o Leão da Tribo de Judá” (Ap 5.5). É Jesus que tem o cetro em suas mãos (Hb 1.8; Ap 19.15), ele é o Rei de reis e Senhor sobre senhores (Ap 19.16).

II. A construção da cerca do pátio

O Senhor já havia dado grande demonstração de condescendência para com os homens, vindo habitar no meio deles naquela pequena estrutura do tabernáculo. Se a Deus agradava estar no meio do seu povo, ao povo certamente causou imenso regozijo a glória (hb. kabod) divina manifesta bem perto deles, garantindo-lhes comunhão, provisão e proteção. Entretanto, para que a alegria não se transformasse em excessiva euforia, o próprio Deus cuida de estabelecer limites através de um cortinado em volta do tabernáculo, o que visualmente ensinaria aos hebreus a importância da reverência diante da santidade divina.

A ilustração abaixo dá-nos uma ideia do pátio cercado por cortinas e colunas:

1. O cortinado

O átrio do tabernáculo media aproximadamente 45 m x 22,5 m, e era cercado de cortinas de linho de 2,30 m de altura para dar privacidade àqueles que estavam cultuando em seu interior. O tabernáculo propriamente (lugar Santo e Santíssimo) era pequeno e ocupava apenas 1/15 de toda a área. O estudante da Bíblia poderá questionar por que essas medidas costumam variar nos estudos que tratam do assunto e, por vezes, nas próprias traduções bíblicas. Elienai Cabral explica:

Na verdade, essas medidas não são iguais nas várias versões e traduções da Bíblia, porque a medida em côvados difere de uma para a outra. Essa é a razão por que os estudiosos preferem arredondar esse número (…) Isso não trará nenhum problema de ordem teológica por serem números de medidas. [1]

O cortinado tinha uma tríplice função: (1) demarcar os limites do território sagrado para que nenhum desavisado fosse além do permitido; (2) preservar o santuário com sua mobília, quer fosse contra a ação humana ou contra animais do deserto; (3) mostrar ao homem pecador que ele está separado de Deus, embora Deus esteja tão perto do homem pecador. O pecado é que faz essa separação! (Is 59.1,2) Somente entrando pela porta e mediante o sacrifício vicário (substitutivo) é que o homem poderia aproximar-se de Deus.

2. Colunas, cortinas e varais

O cortinado que cercava o tabernáculo era de linho fino (possivelmente de cor branca) e sustentado por 60 colunas (ao que tudo sugere feitas de madeira de acácia ou cetim e revestidas de bronze). Todas essas colunas estavam firmadas em bases de bronze. Haviam ainda ganchos (ou colchetes) de prata que ostentavam as cortinas do tabernáculo, além de capitéis ou faixas que ornamentavam essas cortinas. Os pregos que garantiam a firmeza e sustentação das colunas eram igualmente feitos em bronze (ou cobre – Êx 27.19).

Não havia nada de ouro no pátio, mas apenas no interior do tabernáculo (onde não havia nada em bronze ou cobre). Noutras palavras, os metais de menor valor estão no exterior, ao passo em que os metais mais valiosos estão no interior. Assim é nossa relação com Deus: quanto mais distantes estamos, menos de seus tesouros conhecemos; nossa riqueza espiritual aumenta na medida em que adentramos à sua presença. Muitos vivem em pobreza espiritual porque estão sempre na periferia da fé, quando poderiam aprofundar sua comunhão com Deus pela oração e pela Palavra, e assim descobrirem as inexauríveis riquezas de Deus!

Considerando o peso total do que foi usado para toda a construção do tabernáculo, teríamos algo em torno de: 2.400 quilos de bronze, 3.400 quilos de prata, 1.300 quilos de ouro, riquezas estas que os hebreus obtiveram tanto por ocasião de sua fuga do Egito (Ex 12.12-36) como dos despojos tomados na vitoriosa batalha contra os amalequitas Ex 17.8-15). Vê-se assim que apesar de pequeno, aquele santuário era mui valioso!

Abraão de Almeida explica a simbologia destes três metais, bronze, prata e ouro:

As passagens bíblicas de Êxodo 27.17, Números 21.9, Jeremias 1.18; 6.28, 1Coríntios 13.1 e 2Coríntios 5.21 indicam esse metal [o bronze] como o tipo de julgamento, de juízo. (…) A prata é símbolo de resgate [baseado em Levítico 5.15] (…) O ouro que reveste a mesa, as colunas e a arca, e de que se constituem os colchetes, o candelabro, o propiciatório e os querubins, aponta para a glória e a realeza de Cristo. [2]

De fato, o pátio é lugar de julgamento e redenção: o pecado é julgado na vítima sacrificada e o pecador é redimido da culpa; na expiação dos pecados dos homens, o fulgor da glória de Deus se evidencia, livrando os pecadores arrependidos da condenação da morte.

3. Cerca de linho: santidade e justiça de Deus

Alcançando quase dois metros e meio de altura o cortinado que rodeava todo o átrio escondia-o da vista dos hebreus que estavam do lado de fora, a menos que se olhasse pela porta de entrada e caminhasse para ali com um sacrifício nas mãos. Bem disse o salmista: “O segredo do Senhor é com aqueles que o temem; e ele lhes mostrará a sua aliança” (Sl 25.14).

O cortinado de linho fino torcido (ou trançado) aponta para a santidade divina que “é como uma barreira que não permite ao homem entrar por si mesmo à presença de Deus”[3]. Rouw e Kiene comentam: “As cortinas, bem brancas, contrastam com as tendas cinzentas ao redor. Transmitem a impressão da pureza e santidade que se requer lá dentro”. [4]

III. A porta do pátio

“O homem segue o seu caminho, vai passando ao largo de todo o lado norte da cerca de cortinas brancas, cuja pureza lhe fala à consciência. Chega então ao lado oriental. Ali vê a porta que está aberta, amplamente aberta. Não hesita mais e entra. Agora está num amplo pátio, ou seja, no átrio. À sua frente está essa linda casa, a casa de Deus (…) O sol queima forte sobre a areia do átrio. Ele sente como se estivesse na luz de Deus. Sente que o olhar de Deus transpassa a sua roupa e se fixa em seu coração, e que sabe tudo a seu respeito. Um sacerdote aproxima-se dele. “O que há com você?” pergunta o sacerdote. O homem gagueja um pouco: “Eu… eu pequei… e… Deus… deve castigar…”. “Sim”, responde o sacerdote, “então você veio ao lugar certo”. Deus preparou tudo isso aqui precisamente para pecadores, não para homens que pensam que são bons” [5]

Essa é uma rica descrição de como o hebreu adentrava ao pátio do tabernáculo para oferecer seu sacrifício. Ali estavam o altar do holocausto, a pia de bronze e outros equipamentos usados pelos levitas e sacerdotes para os sacrifícios diários. Não era um lugar de festa, mas de reflexão. Certamente a cena, o barulho e o cheiro dos animais sacrificados e queimados no altar inspiravam profundo temor e reverência. Era o mais próximo de Deus que os hebreus comuns podiam chegar. Dali, eles voltavam.

Para acesso ao tabernáculo havia apenas uma porta na direção oriental. Suas medidas eram de aproximadamente dois metros e meio de altura (mesma altura do cortinado) por nove metros de largura. Quatro colunas de bronze bem ao centro sustentavam a diferente cortina da entrada, que se distinguia do restante do cortinado, feita de linho fino torcido e quatro cores distintas: branco, azul, púrpura e carmesim. A imagem abaixo é bastante ilustrativa:

1. A porta do tabernáculo: uma tipificação do único caminho

A única porta de entrada para o tabernáculo é uma rica representação de Jesus Cristo, a porta da salvação (Jo 10.9) e o único caminho para o Pai (Jo 14.6). O argumento universalista de que “todos os caminhos levam a Deus” é uma velha mentira de satanás para distanciar os pecadores do único caminho. Não há outro nome dado entre os homens pelo qual importa que sejamos salvos, a não ser o nome bendito de Jesus! (At 4.12). A porta de nove metros no tabernáculo é ampla o suficiente para todo homem ou mulher entrar levando o seu sacrifício, e aponta para a amplitude do amor de Cristo, que não rejeita ninguém que vai a ele (Jo 6.37). No entanto, sabemos, a porta que conduz a salvação é estreita (Mt 7.14), no sentido em que ela exige renúncia de cada um de nós.

2. As quatro colunas e as suas bases

Embora seja comum interpretar essas quatro colunas como umas referência aos quatro evangelhos Mateus, Marcos, Lucas e João como sendo a base histórica e doutrinária da nossa fé (inclusive é a abordagem trazida no comentário da Lição), o próprio comentarista Elienai Cabral admite que uma tipologia mais adequada é o fato de que as colunas são quatro, e o número quatro tem um significado especial, pois representa os quatro cantos da terra (e eu acrescentaria: os quatro pontos cardeais – norte, sul, leste, oeste) [6]. Abraão de Almeida concorda com essa interpretação ao escrever:

Essas quatro colunas representam ou falam da oportunidade para todos, pois o número quatro está sempre relacionado com a plenitude da terra. Todos têm a oportunidade de entrar no Santuário (Mt 24.31; Jo 3.16). [7]

Embora a entrada no tabernáculo nos dias de Moisés estivesse restrita aos hebreus [8], aquelas quatro colunas sustentando a cortina da entrada apontavam para a universalidade da salvação, isto é, a oferta de salvação em Cristo feita ao mundo inteiro. “Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” (Is 45.22; Conf. Jo 3.16; 7.37). O próprio Jesus assegurou “a minha carne, que eu darei pela vida do mundo” (Jo 6.51).

3. As cores da cortina de entrada

As quatro cores da cortina de entrada podem, com muita razoabilidade, prefigurar o caráter e o ministério de Cristo encarnado, e aí sim encontraremos um paralelo com os evangelhos de Cristo, segundo a teologia bíblica. Vejamos:

(1) A púrpura – cor aproximado ao nosso roxo obtida de um molusco. Por ser um produto caro, era utilizado pelos reis e pelas pessoas ricas. Por se relacionar com a realeza, a púrpura aponta para o Cristo Rei, conforme tema central do evangelho de Mateus, dirigido aos judeus para apresentar Jesus como o “filho de Davi” (Mt 1.1; 9.27; 12.23), legítimo rei de Israel! Sim, Jesus é o Rei dos reis! (Ap 19.16)

(2) O carmesim – cor vermelha, cor de sangue. Prefigura o Cristo sofredor, cujo sangue vertido na cruz do calvário é poderoso para salvar o mundo inteiro! O evangelho de Marcos, escrito para os romanos, apresenta Jesus do ponto de vista da cruz, como servo sofredor. Ninguém tem entrada à presença de Deus a não ser por meio deste sangue carmesim!

(3) Linho fino (branco) – a cor branca do linho fino aponta para a perfeição do caráter de Cristo. Lucas, que escreveu para os gregos, é o evangelho do Homem perfeito, destacando a integridade, pureza e justiça de Jesus Cristo.

(4) Azul – cor obtida de mexilhões azul-celeste. Também produto caríssimo como a púrpura. Essa cor adornava palácios reais e mansões, e geralmente é uma referência ao azul do céu, como o avistamos daqui. Não seria esta uma representação do Filho de Deus que desceu do céu à terra para reconciliar-nos com Deus e repartir conosco suas preciosas dádivas celestiais? (Jo 3.13) Ninguém mais que o apóstolo João, em seu evangelho, descreve com riqueza o Cristo como Filho de Deus, o “unigênito do Pai” (Jo 1.14).

Conclusão

É maravilhoso deter-nos no estudo do tabernáculo e ver como tão ricamente Cristo estava ali representado. Mas adentramos apenas ao átrio, e ainda nos dedicaremos por duas Lições a estudar a mobília desse ambiente. O átrio é só o começo da nossa fé e da nossa comunhão com Deus mediante Jesus Cristo que nos concedeu esta entrada (Ef 3.11,12). Nós que estávamos fora e longe do Senhor, fomos trazidos para perto. Como está escrito: “Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto” (Ef 2.13). Que privilégio!

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Referências
[1] Elienai Cabral. O tabernáculo: símbolos da obra redentora de Cristo, CPAD, p. 38
[2] Abraão de Almeida. O tabernáculo e a Igreja, 3 ed., CPAD, p. 38
[3] Elienai Cabral, op. cit., p. 39
[4] Rouw e Kiene, A casa de ouro, p. 4
[5] Rouw e Kiene, op. cit., p. 8
[6] Elienai Cabral. op. cit., p. 40
[7] Abraão de Almeida. op. cit., p. 31
[8] Eleinai Cabral escreve: “Os povos gentios ao redor do acampamento de Israel não tinham acesso ao tabernáculo, nem mesmo no Pátio, porque só Israel era o povo de Deus. por isso, aquele lugar específico, ou seja, o Pátio, era o redil do rebanho do Senhor, que era Israel”, p. 37. Nos dias de Herodes, no Novo Testamento, existirá no Templo o que ficou chamado de “pátio dos gentios”, um lugar reservado e o mais próximo do santuário que os estrangeiros podiam chegar.

Fonte: Gospel Prime